Aparece seu texto.
Vida não administrada pode existir. Apesar de eu sentir falta da sensibilidadede te ver a frente me falando.
Não sei se me esgueiro tão bem quanto você entre os escritos. Transbordo também porque não sei fazer diferente, mas falo, falo e canso. Quando canso calo. Fico calado e a minha volta as pessoas acham estranho. Perguntam. Calo. Falo pra poucos. O papel acaba tendo um lugar de confissão. Antes de tudo pra mim mesmo. Sempre releio o que escrevi, mesmo aqueles textos mais velhinhos, meio bobinhos, vira e mexe volto neles. Lembro o que sentia, como pensava. Gosto de textos pra poder pensar como quem escreveu. Você pensa de um modo agradável, eu acho. Os adjetivos gosto de torná-los em verbo, fazer da qualidade uma ação. Você gostaria muito de conhecer o Manoel de Barros. Essa prosa poética, que o Manoel também faz bastante, me leva antes de tudo a questões existenciais, subjetivas. Gostaria de escrever a prosa poética com descrição, tocar no objeto com as palavras íntimas, descrições memoriais. Tenho textos assim, são poucos, mas gosto deles...
O texto é uma fuga do meu mundo; vivo nele sozinho desde sempre. O texto, a prosa, a poesia, o que quiser, vira um expurgo, um botar-pra-fora de mim, das minhas maquinações neuróticas e inescapáveis. Como olhar o monstro de que sempre se teve medo nos olhos e saber que ele também é você e sempre estará lá... O texto é o anúncio desse outro que vive em mim e eu desconheço. Me assusto com o que sai, mas quando enfrento saio forte, não preciso nem mesmo mostrar para ninguém. Pra mim. Tenho desejo e vontade de escrever! E tenho que te dizer que é impressionante ler um texto tão sensível quanto o seu exatamente por isso: porque escrever é sofrer de um prazer solitário.
Não sei quantas vezes vou conseguir te escrever uma carta desse tamanho. Mas gostaria de te mandar coisas também. Acho que enfrento essa solidão menos que você. Me distraio com facilidade e eu sou o meu maior boicote. Mas o que quero ser? Algum escritor ou algo do gênero? Não sei, essas coisas não se falam, se fazem...
Lembrei desse trecho de um livro ao ler seu texto:
"Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora leio Proust
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
Manoel de Barros - Livro sobre nada
bjos
e
ps1: o Bola-Sete é um cara muito legal, depois de apresento.
ps2: "Tudo que não invento é falso". MB
